Vazamento de dados: quando comunicar titulares e a ANPD
Entenda como conter e avaliar um incidente com dados pessoais, quais critérios indicam risco relevante e como documentar comunicação e resposta.
Um incidente com dados pessoais não começa pela redação de um comunicado. Primeiro é necessário conter o evento, preservar evidências e descobrir quais sistemas, pessoas e informações foram alcançados. Em seguida, o controlador avalia se a ocorrência pode acarretar risco ou dano relevante, critério que aciona a comunicação à ANPD e aos titulares pela Resolução CD/ANPD nº 15/2024. Confundir qualquer indisponibilidade com vazamento ou, no extremo oposto, esperar certeza absoluta antes de avaliar, pode ampliar o dano e comprometer os prazos.
Incidente, violação e alcance real
A ocorrência pode envolver confidencialidade, integridade ou disponibilidade: acesso indevido, alteração, destruição ou indisponibilidade prolongada. A equipe deve identificar ambiente, intervalo, dados, titulares e possibilidade de extração ou uso, preservando logs antes de reinicializações e correções que apaguem vestígios.
A contenção pode começar antes da conclusão completa, com revogação de credenciais e isolamento de sistemas enquanto a investigação continua e registra quem tomou cada decisão.
Avaliação de risco ou dano relevante
Dados sensíveis, financeiros, de autenticação, protegidos por sigilo, de crianças e adolescentes ou tratados em larga escala elevam a atenção. Também importam facilidade de identificação, medidas de proteção, número e vulnerabilidade dos titulares e possíveis efeitos materiais, morais ou discriminatórios. Criptografia efetiva e inutilização da chave podem reduzir o risco, desde que demonstradas.
A conclusão precisa ser fundamentada e, mesmo quando não houver comunicação, o registro deve explicar os fatos, os critérios considerados e as medidas adotadas.
Prazo e conteúdo da comunicação
O regulamento estabelece comunicação à ANPD e aos titulares em três dias úteis a partir do conhecimento de que o incidente afetou dados pessoais e pode gerar risco ou dano relevante, ressalvadas hipóteses específicas. Informações ainda indisponíveis podem ser complementadas de forma fundamentada, enquanto a mensagem inicial explica natureza, dados afetados, riscos e medidas de proteção em linguagem clara.
A comunicação tempestiva não exige especulação, pois pode indicar os limites da apuração e ser atualizada, mantendo coerência entre autoridades, titulares e canais públicos.
Papéis de controlador e operador
O operador deve fornecer ao controlador as informações necessárias sem demora, conforme contrato e instruções. O controlador decide e realiza a comunicação, sem prejuízo das obrigações específicas de cada parte. Contratos devem prever canal, prazo, logs, cooperação forense e aprovação de mensagens, pois negociar essas responsabilidades durante o incidente consome tempo crítico.
Em cadeias com vários fornecedores, a mesma ocorrência pode exigir avaliações distintas para bases e controladores diferentes.
Registro, aprendizado e conservação
A Resolução exige manutenção, por pelo menos cinco anos, do registro dos incidentes com dados pessoais, inclusive daqueles não comunicados. O documento deve reunir avaliação, decisões, comunicações e medidas, e as causas técnicas e organizacionais precisam alimentar correções de acesso, retenção, backup e resposta, para que o encerramento não se limite à troca de senha.
Perguntas frequentes
Todo vazamento deve ser comunicado? A comunicação externa é exigida quando houver possibilidade de risco ou dano relevante, mas todo incidente deve ser avaliado e registrado. O prazo começa quando a investigação termina? Não; o marco é o conhecimento nas condições do regulamento, admitindo complementação fundamentada. O operador comunica diretamente? Em regra, ele informa o controlador, que é responsável pela comunicação prevista na LGPD.
Como uma análise jurídica pode ajudar
A análise jurídica trabalha ao lado da resposta técnica para qualificar dados, titulares e consequências e registrar a decisão dentro do prazo. Isso permite comunicar com transparência sem expor detalhes que criem novo risco, além de preservar evidências e transformar o incidente em medidas de prevenção verificáveis.
Atuação relacionada
Fontes consultadas
- Resolução CD/ANPD nº 15/2024 — comunicação de incidente de segurançaFonte oficial · consulta em 24 de setembro de 2026
- Lei Geral de Proteção de Dados — Lei nº 13.709/2018 (texto compilado)Presidência da República · consulta em 24 de setembro de 2026
- Resolução CD/ANPD nº 2/2022 — agentes de tratamento de pequeno porteAutoridade Nacional de Proteção de Dados · consulta em 24 de setembro de 2026
- ANPD — Resolução nº 15/2024 e comunicação de incidentesAutoridade Nacional de Proteção de Dados · consulta em 24 de setembro de 2026
- ANPD — canal de comunicação de incidente de segurançaAutoridade Nacional de Proteção de Dados · consulta em 24 de setembro de 2026
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